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Recentemente, alguém me abordou com uma afirmação curiosa: “O japamala tem de ser oferecido por outra pessoa, não se deve comprar para si próprio.” Já tinha ouvido esta ideia anteriormente, mas na altura não lhe dei muita atenção. Mas como parece continuar a circular, vale a pena esclarecer.Nos estudos que fiz, na experiência e nos conhecimentos que fui adquirindo no que toca aos japamalas — tanto no contexto budista como no hindu — não encontrei qualquer referência que apoie essa crença. Pelo contrário, em ambas as tradições, o japamala é entendido como uma ferramenta pessoal de prática espiritual. A escolha consciente de um japamala, feita por quem o vai utilizar, pode até aprofundar a ligação com a sua intenção e propósito.
É relativamente comum, sobretudo no universo dos cristais e bijuteria esotérica, surgir a crença de que “não se deve comprar cristais para si próprio, apenas recebê-los como presente”. Essa ideia, mesmo nesse contexto, já levanta dúvidas — não só por carecer de fundamento tradicional ou histórico, mas também por contrariar o princípio de escolha intuitiva e consciente que muitos praticantes valorizam.Quando essa mesma crença é transportada para o japamala, torna-se ainda mais deslocada.Intrigada com a repetição desse discurso, procurei fontes que a fundamentassem, li e reli textos sobre as tradições hindus e budistas, observei o que é partilhado por artesãos que produzem japamalas com conhecimento de causa — e em nenhum momento encontrei qualquer referência que sustentasse essa teoria de que o japamala não pode ser adquirido por iniciativa própria. Pelo contrário, o que encontrei reforça a ideia de que a escolha do japamala é parte do processo espiritual. Escolhê-lo com consciência, com intenção clara, pode ser o primeiro passo numa prática mais presente e significativa. Impor a ideia de que só se deve recebê-lo como presente, sem que haja qualquer base tradicional para isso, é reduzir a liberdade individual de conexão com a prática.Ao que tudo indica, estamos perante mais um daqueles conselhos repetidos sem origem clara, que alguém terá ouvido algures e partilhado como verdade absoluta — e, como tantos outros no meio espiritual contemporâneo, acabou por se espalhar sem que ninguém o questionasse a fundo.
No budismo tibetano, no budismo zen, no hinduísmo e em diversas outras escolas espirituais, o japamala é uma ferramenta pessoal de prática.Escolher conscientemente o próprio japamala faz parte do processo de preparação e compromisso com a prática espiritual. Afinal, é com ele que se vai estabelecer uma ligação energética e meditativa. Recitar mantras, contar repetições, manter o foco — tudo isso passa por um processo íntimo. Por isso, faz todo o sentido que seja a própria pessoa a escolher um japamala que esteja em sintonia com aquilo que precisa trabalhar naquele momento.Mesmo monges, praticantes avançados ou iniciantes em retiros são orientados a adquirir os seus próprios japamalas — muitas vezes com contas e outros materiais específicos, determinadas estruturas e intenções bem definidas.
Por exemplo, muitas escolas de yoga costumam presentear alunos que concluem formações, como símbolo de gratidão e lembrança para que mantenham a prática viva.No entanto, isso não invalida o acto de comprar um japamala para si próprio. Assim como um livro espiritual pode ser adquirido ou oferecido como presente, ou como alguém pode acender uma vela numa prática pessoal ou dedicada a outra pessoa, não existe qualquer regra mística que impeça a compra pessoal do japamala.Aliás, a ideia de que um japamala “perde valor” quando comprado por quem o vai usar é, no mínimo, ilusória. A verdadeira força do japamala reside na prática que o acompanha: na presença, no mantra recitado e na energia dedicada a cada conta. Isso é o que lhe confere significado, e não uma regra inventada, certamente no ocidente, sem qualquer respaldo cultural ou espiritual.Portanto, quer seja presenteado ou escolhido pelo próprio, o japamala ganha vida através do uso consciente e da intenção sincera de quem o utiliza.Para saber mais sobre como escolher um japamala, seja para uso próprio ou para oferecer de presente, com dicas práticas para uma escolha consciente e alinhada à jornada de cada pessoa, pode consultar este artigo complementar.
Infelizmente, estas ideias descabidas ganham espaço porque parecem “místicas” e raramente são questionadas.Muito provavelmente, esta e outras teorias foram criadas para dar um "toque" mais espiritual e misterioso ao japamala e foi alastrando. É comum no meio espiritual ocidental que certas crenças sem base tradicional se espalhem, atraindo atenção mas também gerando confusão.Existem muitas destas “crenças” semelhantes, que circulam sem fundamento, e podem acabar por afastar pessoas interessadas numa prática genuína e séria.Fica então o esclarecimento: pode (e deve) comprar o seu próprio japamala. E deve fazê-lo com consciência, respeito e intenção.A prática espiritual começa quando assumimos a responsabilidade pela nossa jornada. E essa escolha ninguém pode fazer por si.
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