Anatomia do Japamala


O primeiro colar de contas encontrado remonta há cerca de 42.000 anos, mas acredita-se que o seu uso surgiu por volta do séc. VIII a.C. na Índia.

A sua utilização teve origem no Budismo e no Hinduísmo, tendo ficado globalmente conhecido como terço budista ou simplesmente terço espiritual. Foi o predecessor do terço católico e de tantos outros colares de oração.

São actualmente usados em diversas culturas e religiões (embora com nomes diferentes) como ferramentas espirituais, mas foram também, em tempos antigos, talismãs de protecção, amuletos e adornos para ostentação de riqueza e autoridade.


Estrutura Indiana

Tipicamente, na estrutura indiana, os japamalas são feitos com 108 contas ou 18, 27, 36 ou 54 que são divisões do número 108, sendo estes mais pequenos usados como pulseiras.

Podem ser construídos com diversos materiais naturais como pedras, madeiras, metais, concha, osso e sementes. Na Índia, são mais comuns os japamalas de madeira de sândalo, pau rosa e tulsi e as sementes de rudraksha. Dependendo do material, as propriedades das contas têm um determinado efeito energético. A semente de Rudraksha, por exemplo, está associada à clareza e à serenidade e ao deus Shiva. Acalma a mente mantendo-a livre da negatividade. A sua textura rugosa ajuda o praticante a estar no aqui e agora.

Tipicamente as contas são redondas e com tamanhos entre os 6, 8 ou 10mm. Os colares com contas maiores tornam-se mais fáceis para a repetição, mas também mais pesados e compridos.

Os colares geralmente são elaborados em cordão de algodão ou cânhamo e as pulseiras com cordão elástico ou cordão de algodão com nó ajustável.

Podem ser feitos com um único material ou com vários tipos diferentes, incluindo combinações de materiais distintos. São mais comuns os japamalas totalmente em sementes de rudraksha ou com sementes de rudraksha alternadas com pedras naturais em perfeita harmonia.

As divisões são diferenciadas por contas separadoras, geralmente diferentes ou destacadas e não servem para contagem.

Tradicionalmente, entre cada conta existe um nó ou um espaçador de metal que são usados para decoração do japamala e não para contagem. Marcam o início e fim da conta na qual se está a recitar o mantra, é como um "fecho" daquela contagem.

O estilo mais tradicional é o japamala sem divisões (108 contas seguidas), mas também são comuns os estilos mantra (duas divisões de 21 contas e duas divisões de 33) e o zen (duas divisões de 7 contas, duas de 14 e uma de 66), sendo este último mais direccionado para a prática da meditação (Dhyana), autocontrolo rigoroso, percepção da natureza das coisas, expressão pessoal e especialmente para o bem supremo de todos.

O final do japamala é destacado por uma conta de nome Guru (também chamada de Meru, Sumeru, Conta Stupa ou simplesmente conta 109). Representa o Mestre ou a Montanha Sagrada. Não serve para contagem, nem deve ser tocada em sinal de respeito. Pode ser do tamanho das 108 contas do japamala, maior ou diferente para se destacar, mas tipicamente redonda e feita com um dos mesmos materiais utilizados na composição do japamala.

Por fim, o Tassel (pendão de franjas) que geralmente é colocado nos colares de 108 contas, simboliza a conexão com o Divino e a Unidade. Na Índia simboliza também o quarto estado de Turiya (consciência pura), o desejo de cultivar Prana (energia vital) e o anseio de Moksha (libertação). No budismo indiano (e japonês), representa as raízes da flor de lótus lembrando que sem lama não há lótus. É tradicionalmente feito de fios algodão ou seda e são utilizados nos mais diversos tamanhos e espessuras. Alguns podem ser encontrados decorados com uma capa em metal.

Também podem ser encontrados em pulseiras e colares pendentes contendo símbolos com os mais diversos significados. Apresentam-se em vários materiais, cores e tamanhos.



Estrutura Tibetana

No budismo tibetano, são utilizados tipicamente japamalas de 108 contas, embora alguns praticantes utilizem de 21 ou 28 contas para as prostrações.

Os materiais das contas são tradicionalmente a madeira de sândalo, pau rosa, ágar e de tulsi, osso, concha e sementes bodhi e de lótus. Alguns japamalas tibetanos são construídos contendo algumas pedras preciosas e semi-preciosas.

Os materiais variam de acordo com o gosto e riqueza. Tibetanos mais abastados usam japamalas de âmbar, coral e osso humano. As contas mais valiosas são feitas a partir de osso de um Lama.

As contas são redondas, ovais ou cónicas. Podem ser encontrados japamalas com contas irregulares, geralmente feitas de sementes.

Os tamanhos das contas variam entre os 8 e 18mm, sendo mais comum as contas maiores encontrarem-se em pulseiras. Nos antigos japamalas tibetanos, eram usados três tamanhos diferentes para fazer as divisões de 27 contas.

Os colares geralmente são elaborados em cordão de algodão assim como as pulseiras, embora estas tenham uma terminação com nó ajustável.

Podem ser feitos com um único material ou com vários tipos diferentes, incluindo combinações de materiais distintos.

Geralmente, não têm nós nem espaçadores de metal entre as contas.

Os mais comuns são o japamala sem divisões (com 108 contas seguidas) ou com quatro divisões de 27 contas (27x4=108), o chamado japamala tibetano.

Alguns modelos contêm dois contadores ou "guardiões de números", um de cada lado do japamala. Consistem em dois pendões com 10 pequenas contas cada um que servem como um "ábaco" para manter o controle do número de vezes que é repetido o japamala completo.

Na terminação de cada contador, são acrescentados dois pequenos adornos, um de cada lado, representando um Dorje (Vajra em sânscrito) e um sino de nome Drilbu (Ghanta em sânscrito). O Dorje, marca o número de contagens completas do japamala, enquanto que o Drilbu marca a quantidade de vezes que o Dorje ficou sem contas marcadoras. São utilizados para mantras muito longos (alguns para repetir centenas de milhares de vezes) e podem ser acrescentados ou retirados se necessário.

Além destes adornos, podem ser adicionados objectos pessoais como pinças e chaves.

A conta Meru ou Guru, geralmente é maior e diferente para se destacar. A mais comum é a conta de forma cónica em madeira, concha, pedra ou osso.

Outro adorno que pode ser encontrado nalguns japamalas tibetanos é a conta Dzi, a conta mais cara que existe num japamala tibetano. Chega a custar milhões de RMB. São contas muito antigas, encontradas no Tibete e na região dos Himalaias, sendo que algumas remontam há 1000 ou 2000 anos a.C. Geralmente são em pedras semi-preciosas, em vários tamanhos e formas (sendo mais comum a forma oval) e podem conter decorações ou não, tendo cada uma o seu significado. Dividem-se em duas categorias, diferenciando-se pela pureza e valor das contas.

A terminação é tradicionalmente feita com as duas pontas do cordão unidas com vários nós junto à conta Guru e outro nó nas pontas.


Outras Estruturas

Na China, o japamala não tinha grande expressão até ao domínio Manchu (1644-1912), época em que se começaram a construir japamalas semelhantes aos dos tibetanos, alguns com alguma complexidade, ganhando assim bastante popularidade. Chamavam-se "correntes da corte" ou "colares da corte" e eram sobretudo um símbolo de status e não uma ferramenta espiritual.

Na Coreia, o budismo era a religião oficial até ser banido pela dinastia Yi (1392-1910). O colar de contas era um dos objectos mais importantes dos rituais religiosos e tinha geralmente 110 contas, sendo que as duas contas extra eram grandes e uma decorada com uma Swastika, logo no início do colar, e a outra lisa, localizada precisamente a meio.

No Japão, o japamala também representa um componente importante da vida social e religiosa. As casas de chá tinham, antigamente, ganchos nas paredes para pendurar os colares e que dava muito prestígio às casas. O japamala foi introduzido no país através de monges e cidadãos comuns em funerais e outras cerimónias religiosas. Assumiu diversas formas e, consoante as variantes espirituais, continham diferentes decorações e números de contas, sendo os mais comuns o Ojuzu com 108 contas e o Shozoiki Jiu-Dzu com 112. O material de eleição são as madeiras de cerejeira, pau rosa, ébano e mogno, mas também caroços de cereja e nozes e caroços de pêssego esculpidos. As nozes da árvore Cinamomo também eram muito populares. É bastante comum, a conta Guru conter uma pequena imagem no interior representando um templo ou escola budista que exposta à luz é claramente visível.

Na Irlanda, o uso de colares de oração só foi aprovado pela igreja no séc. XVI. Contêm 59 contas que são usadas para orações em honra da Virgem Maria.

No séc. XVII, os muçulmanos adoptaram também um colar a que chamaram de Subha, Misbaha ou Tasbih que contêm 99 contas e uma terminação alongada. Têm três divisões de 33 contas.

São usados pelo Sufismo para a prática do Zikr, a recitação dos 99 nomes de Deus. Já no ultra-conservador Salafismo, o colar de contas é visto como uma inovação intolerável.

No Sikhismo, são usados japamalas de 27 e 108 contas porque são números divisíveis por 9. São construídos com correntes de aço e com pequenas contas de ferro, sândalo ou plástico. São utilizados como ferramentas para encorajar a prática espiritual e fortalecer a ligação com o Divino. Habitualmente os sikhs usam-nos no ombro, no pulso e no turbante ou no bolso quando não estão em uso.

Na Grécia e Chipre, os colares de contas Kompoloi, ou Contas de Preocupação, são usados desde meados do séc. XX. Têm 17, 19 ou 23 contas, sempre número ímpar e são construídos a partir de qualquer conta, embora as tradicionais sejam o âmbar, a resina e o coral porque acreditam que são mais agradáveis ao toque do que materiais como minerais e metais. Ao contrário de outras culturas, não são usados para fins espirituais, mas sim como amuletos de sorte, para relaxamento e como símbolo de prestígio social (especialmente os Kompoloi de âmbar).

No Cristianismo, o colar contém 150 contas simbolizando o rosário, (conjunto completo de todos os mistérios da vida de Jesus Cristo), mas tornou-se comum o Terço com 50 contas, representando uma terça parte do rosário. Existem terços nos mais variados materiais, desde madeiras, pérola, plástico, metais, pedras preciosas e semi-preciosas.

Tradicional do Nepal, é o japamala chamado de Buddha Chitta Mala utilizado para a adoração do Buda e para a paz espiritual. Consiste num colar budista construído com sementes Bodhi oriundas da árvore Ziziphus Budhensis com especial abundância no centro do país. Têm um tom castanho claro e uma textura mais polida que a rudraksha. Apresenta mukhis, tal como a rudraksha, que são os "gomos" da semente, e existem em muitas variedades e tamanhos. Existem sementes a medir mais que 18mm e menos que 6mm, sendo estas extremamente raras e caras.

Na Tailândia existe o Phuang Malai (ou Malai) cuja primeira aparição remonta ao reinado do rei Rama V. Consiste numa espécie de grinalda feita com flores frescas e tornou-se num objecto ornamental muito importante em cerimónias. Existem seis tipos de colares cujas técnicas de construção e materiais variam consoante a finalidade de cada um. Tradicionalmente, o Phuang Malai tem três utilizações: como oferenda demonstra respeito, como presente colocado ao pescoço de alguém demonstra importância, e como recordação (geralmente um colar mais pequeno) é oferecido por um anfitrião numa festa ou cerimónia a um grupo de pessoas. Em casamentos, ambos os noivos utilizam o Malai como símbolo de amor, sorte e compaixão. No nordeste da Tailândia, existe outro tipo de japamala construído em bambú que é utilizado no retiro budista Theravada que acontece anualmente e dura três meses.

Em Myanmar, são usados colares de oração chamados de Seik Badi (vulgarmente chamados de Badi) que contêm 108 contas e são geralmente construídos com madeiras perfumadas e cordões coloridos na terminação. São tradicionalmente usados na meditação Samatha pelos budistas da corrente Theravada.

O Hawai também tem colares de oração construídos, sobretudo, a partir de flores frescas, sementes e frutos, mas também, embora não tão vulgares, a partir de conchas, dentes de peixe, penas, tecidos e origamis de papel. Chamam-se Lei e pretendem simbolizar a paz, amor, amizade e honra por outra pessoa. Tradicionalmente são oferecidos em eventos especiais e cerimónias, mas também como um gesto de honra para com os deuses. No primeiro dia de Maio faz-se uma cerimónia para homenagear os artesãos de colares Lei e os costumes associados.


Estilos (estruturas indiana e tibetana)

Existem 4 tipos de divisões num japamala de 108 contas:

- Sem divisões (108 contas seguidas)

- Zen (duas divisões de 7 contas, duas de 14 e uma de 66)

- Mantra (duas divisões de 21 contas e duas divisões de 33)

- Tibetano (quatro divisões de 27 contas)




Fonte(s): Japa Mala Beads, Dharma Beads, Mala Collective, Golden Lotus Mala

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